Era de Áries

Quando a Terra fez-se de repente imensa luz, e era ímpeto diverso que tomava as vilas, as grandes cidades, a própria natureza. Após dois mil anos de um lento e tranquilo influir do Signo de Touro, a mais fixa energia de todo o firmamento, entrava nosso cosmos no ritmo de Áries, a chama impulsiva que tudo aflora no extremado prosseguir.

Tempo de muitas mudanças, como soem ser os trânsitos de eras, e a primeira notícia que temos conclusiva sobre a Era de Áries parece ser – ao menos no mundo aquém-Índia – dos “povos do mar”. É de se lamentar que sejam as primeiras notícias de triste relatar. Contribui para alguns malfadados estereótipos do simpático carneiro. Contudo, os primeiros lampejos da chama cardinal de certo se manifestaram forte na cultura, nas festas, na própria representação de seus Deuses, e mais-que-tudo no sentir esse mundo: de repente não tinha cara mais a Terra de planeta Terra: estacionado chão em que se planta, e que demorada mas seguramente se colhe… Era a Terra agora um infinito chamado adiante, de repente, de repente… E agora era tão mais imenso esse chamar do mar. Se examinarmos a cultura da Era de Áries poderemos ver o que de certo em seus primórdios já começara, mas que do posterior mundo grego-romano mais conhecemos.

Os povos do mar causaram amplos distúrbios na Magina Grécia e Península Itálica, e muito se suspeita que aqueles de quépe com penas e escudos circulares, derrotados no Egito e figurados em diversos murais entrepirâmides, seriam já os Homéricos, valentes ancestrais de Helena, a dar as caras.

Porém, pelo menos até Alexandre continuou a Grécia região de menor requinte, e foi ao desembarcar no litoral do leste-mediterrâneo, Fenícia, Assíria, que transformaram a história; boa parte do império Assírio caiu, assim como muitos antigos reinos da Anatólia; ficou o Egito como o último bastião dos esplendorosos impérios da Era de Touro, sustentados sempre neste tripé: Egito, Tigres-Eufrates, Anatólia.

Algumas poucas cartas que nos restam mostram fragoroso espanto dos reis das riquíssimas cidades mediterrâneas ao pedirem ao Egito auxílio contra aquele novo, impensável adversário. Vinham as hordas de navegantes, cerca de seis ou sete povos diferentes, mas que nas investidas se aliavam, dispostos a tudo dominar. Lançavam-se à frente como se fossem as muralhas de antiquíssimos impérios não mais resistentes que as ondas do mar.

A Era de Touro primava à segurança, ao tranquilo viver, à apreciação pacata do chão, do barro ou de qualquer firme montanha piramidal. É de se compreender que, mediante cautelosa sina, o equilíbrio entre os três reinos – Assíria, Faraós e Hititas – sempre soube se manter. São os povos do mar que primeiro desarremedam milenar ordenação; mil anos depois, caberá a Kuruk, o jovem Ciro, descer galope avante das estepes partas a enfim derribar a monarquia Egípcia e alterar o rumo da história; finalmente o mundo estando baixo um só cetro; e isto, que de Áries é, de liderar, mais se configurará bem no se-poer da Ariana era, quando Roma, Sassânidas e a China recortam bem mais amplo mundo em equilibrada tríade.

Ora, em pensar em Ciro, já adiantados anos destes tempos astrais – Carneiro já com longa barba, se compararmos com a época dos arroubos náuticos dos povos do mar – vemos como enfim tão pouco conhecemos desta tão saudosa Era de Áries. São estátuas e mitos e letras gregas em profusão; que tanto encantaram e encantam na intensidade extremada, báquica, de Marte. Mas tudo de período exíguo; Heródoto já declama Ciro em remoto passado, e de Platão à Alexandre é um cair de barbas.

Do que tanto se sucedeu nos séculos antes de Ciro é o que se tenta hoje desvendar mediante a leitura daqueles milmilhares de pedrinhas de barro, cuneiformes, escrita que, de tão segura, só poderia ser produto mesmo de mentes taurinas. Das mais antigas, vemos o Sumério e o Elamita, que, milênios antes dos chineses se adiantarem a Gutenberg, inventaram a imprensa – mas terrenamente segura, em barro de pedra feito para durar o eterno que fosse.

Disto, temos paradoxal realidade; tendo a Era Ariana prosseguido com esta escrita, hoje encontramos imensa quantidade de textos desta época, talvez até mais copiosa do que a literatura grega; mas disposta de maneira aleatória, grande parte consistindo em documentos administrativos… Diferentemente da helena, esmeradamente selecionada e copiada por séculos até onde o autoritarismo religioso não fosse impedir.

Acompanhando estas pedrinhas vemos variadas línguas, e o lento surgimento dos alfabéticos semíticos – de três consoantes -; a língua franca era o Acádio, da imperial cidade de Akkad, jóia dos tempos quase desconhecida, em que, assim como no Egito se mantinham as antigas tradições, se estudava o Sumério como até há pouco estudávamos o latim. O Ugarítico aparece como primeira língua ao mesmo tempo cuneiforme e alfabética; muito se estuda o Hurriano, na qual se encontraram dezenas de composições musicais ainda por definitivo decifrar; os Hititas – reinando na Anatólia – adaptaram a escrita Acádia ao seu linguajar, legando-nos a mais antiga ancestral do Português, alguns séculos anterior ao Sânscrito.

A vívida Era de Bronze, dos tempos de Tróia e Penélope; Não é exagero considerar que a maior parte da cultura humana hoje presente no mundo tem origem na Era de Áries.

Já no seu fim, em Alexandria, foi feita ampla compilação dos recém-milenares conhecimentos. Processo similar ocorreu na Índia e na China. É certo que esta cultura toda tinha origem mais arcaica; mas, disto pouco conhecemos, e o que nos parece é que a Era de Peixes e de Aquário fizeram poucos arremedos no que Áried nos legou: as bases já estavam dadas. O incansável ímpeto Ariano avançou em todos os campos do viver humano: todas as artes, ciências, experiências – para que no fim desta Era fosse tudo na língua de Safo devidamente registrado.

A Astrologia, Filosofia, Botânica e Zoologia, Medicina, Geometria, Arquitetura, Física e Metafísica… Tudo, tudo se compilava em Alexandria, com o mesmo afã que a Atenas clássica tinha pelo saber, mas agora com acesso à amplo cabedal de papiros que Platão antes só sonhara.

E por isto parece nossa antiga tradicional Astrologia em tempos Aquarianos tão ingênua: distinguem-se benéficos e maléficos astros e logo se diz ao perguntante seu certo destino – vidência tão direta e fatídica que levou Horácio a firmar – Tu ne quaesieris, scire nefas – Tu não questiones, saber é nefasto… Mil anos mais tarde, Omar Khayam iria também criticar a astrologia, mas com menos susto, e mais por pintar um mundo de constante iludir:

Nos Céus há um touro mugindo
Sob a Terra um touro enterrado
E entre estes dois touros, ó vidente,
Vagam um bando de asnos.

Nas primevas calendas Netunianas, a imediatez da Astrologia ao místico Plotino causava alergia. “Como assim que os astros se miram e desmiram e se invocam?!” Sem, contudo, pelos seus evidentes efeitos – e nisto seu tempo se nos esbanja aquático racionalismo – questionar sua validade.

Se todas as ciências desta época nos parecem dotadas de franca ingenuidade, as artes, entretanto, costumam ser mais admiradas pela sua intensidade, vigor, imediata pureza.

O século XVIII, já no pós-assombro das mil-e-uma-noites se admirava da linguagem concreta, sempre lidando com o viver mais real, despreza-abstrações, de Homero. As poucas estrofes conhecidas de Píndaro nunca deixaram de causar frisson, e há quem garanta que o mais belo poema de Amor conhecido é o único que conhecemos de Safo.

Sua estatuária restou milênios como modelo, mas isto não apenas pela perfeição do traço, mas pelo vigor mesmo com que eram representados os Deuses. Não necessitavam auréolas de misticismo, os Deuses estavam ali, para ser tocados – qualquer outra razão não haveria par tal detalhado abdômen, músculos, o contorcer dos braços… E Áries não rege mesmo o Ascendente, força vital e corpórea? O olhar-além dava-lhes o quê de divino, mas estavam irremediavelmente ali, para que sua força de corpo inteiro fosse por nós sentida. Todos os refinados volteios místicos com que soube se arabescar a arte pisciana são sem dúvida de maravilhar, mas esta imediatez da arte antiga nunca deixou de causar saudoso espanto.

Não à toa boa parte da Era de Peixes repetiu-se entre múltiplos momentos de “renascer” este passado. É certo que o autoritarismo religioso e sua forçosa repressão cultural em muito contribuíram; mas aquela estética tão única e diferente, que remetia a todo um distinto modo de ver e viver a vida, de compreender o mundo: era o que se esforçava de por dentro de si fazer renascer. Afinal, se era o mesmo chão ali da Itália, e havia em torno tudo, ainda que em ruínas, como haveria aquela terra e aquele mesmo mar, no instante agora, esta realidade nos negar? A questão, talvez, estivesse nos céus. Já em esclarecidos tempos, Winckelmann pouco nos disfarçará falar somenos de estátuas e mais do grego deslumbrante viver. Desde os tempos dos povos do mar.

E eis que de repente um véu místico nos encobre; de começo, é tudo um balbuciar de doutrinas, que tremem entre os dentes por tão imediata novidade: hermetismos, cabalas, gnosticismos, zoroastrismos, maniqueísmos…

O vivaz do mundo cede ao seu grande mistério: e tudo o que nos cabe é deslindar, é emaranhar-nos nesses véus; renovados tempos, renovados céus.

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