Lua em Gêmeos

A Lua em Gêmeos torna as palavras e o pensamento matéria de emoção. É posição conhecida por inúmeros escritores, poetas e líricos em geral. Dá a mente uma certa compleição aquosa que faz com que pensamentos e emoções se misturem; os leves raciocínios e os influxos profundos de água e lágrima se entrecruzam, causando por vezes incompreensível ânsia de curiosidade e fala, outras vezes um simplesmente parar quieto em meio ao movimento e a fala para candidamente se emocionar

Estes nativos dão especial importância aos Livros, e também às máquinas – em particular às mui articuladas máquinas eletrônicas. São de sublinhar páginas, são de considerar um livro particular como algo de que nunca hão de se desfazer e já imaginam suas memórias redigidas em páginas e páginas a descreverem também os livros com que sempre hão de estar. Anos depois são de rever aquilo que sublinharam, aquela anotação, citação ou frase perdida num romance, para renovadas lágrimas.

Os eletrônicos vêem também com ternura, tudo o que é movimento e caminho de se andar. Sabem o nome das antigas ruas dos bairros em que viveram, e se debruçam ante as esquinas e as placas como quem vê em toda trilha algo de saudoso, algo de Lunar

Lunáticas conversas os entretém, e são nas mais das vezes de falar em passado. No longínquo passado que se torna prazeroso raciocínio… Desvendar o passado em palavras para dele trazer novas emoções. Mente sempre inspirada, mas nem sempre disposta a se exercitar

Podem deixar de lado atividades cotidianas ou mesmo afazeres profissionais a depender do temperamento – ou, melhor dizendo, a depender do movimento da Lua nos doze céus. A comoção que lhes anima a mente, porém, é coisa que lhes torna graciosos e benquistos; podem assim se livrar de cotidianas complicações com tamanha afabilidade que são sempre perdoados estes seus momentos quando o raciocínio se lhes inunda de água e emoção.

Grandes contadores de histórias, sabem buscar no passado o sentido perdido de fábula ou lenda; só não se queira deles que sejam estritos ou sérios em demasia no relatar; sabem que de um conto o que vale mesmo é certo sentido que só soube mesmo quem o pôde viver, e que por isto, só pode mesmo a Lua, que lá esteve, viveu e se emocionou, contar.

Tem inclinação natural para a poesia. Preferencialmente a romântica, noturna e que tenha solidão e leveza mesclada a moderado dramaticismo. Apreciam a música, o xadrez, e conseguem encontrar em paradoxos e problemas de lógica uma inspiração que aos outros passa desapercebida. Podem se dedicar por longos tempos a decifrar um enigma, por perceberem nos intrincados meandros da palavra e da lógica algo que os outros não notam: e que é a leveza de um sentido emotivo, no que parece ser apenas razão.

Sabem estes nativos que a robustez da palavra Razão é apenas disfarce; sabem da fraqueza da mente ante as aquáticas revelações… Sabem que cada verbo e cada regra da gramática existem sempre com relação a um mundo sem fim de emoções que ficaram gravadas nos fonemas, na etimologia perdida de um termo, ou na lembrança de já se ter ouvido aquela mesma combinação de frases… A sutileza de uma inesperada rima.

Será a Geminiana Lua também confusa, e embora tenha memória zelosa por todos os caminhos vivencia-os agora com tanta emoção que podem facilmente dissolver o entendimento em certa confusão: serão, porém, os influxos lunares sempre bem-vindos a darem um sentido outro ao que se pensa entender por discurso; uma profundidade almosa e metafísica ao que por vezes pensamos ser só Razão.

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