Saturno

Há tempestuosa diferença entre o olhar aos céus de nossos ancestrais – à beira do Eufrates, a navegar o Nilo, a espiar à noite do Santuário de Delfos, ou mesmo nas Maias catedrais – e o nosso, no que concerne ao planeta Saturno: eles não o viam.

No imaginário de qualquer criança vige o mais belo Planeta, com seus Anéis: já intrigaram e comoveram os Anéis de Saturno a qualquer um em algum momento de sua jornada: de criança pressentimos seu sublime mistério, enquanto crescemos e lembramos de sua imagem – vista certa vez em uma revista, ou qualquer um ilustrado almanaque infantil – mais percebemos a seriedade de seu encanto; visto por impressionável, imaginativa criança, ou por quem da vida já se julga tão mais sabida, a imagem de Saturno nunca há de deixar de causar espanto.

Em verdade, legava aos antigos já pista de seu mistério: era o último planeta a ser visto, e o mais lento. No último extremo deste mundo – afinal, eram as estrelas fixas claramente um universo à parte – navegava aquele brilho lento, frequentemente retrógrado, e que, como que ignorando nosso calendário, levava dois anos e meio para cruzar os Céus. De certo, já havia quem pressentia: que o que está no extremo, no cume, no fim, é para poucos. Que do extremado é desvario se dizer-lhe menos, contudo tão mais difícil seu manejar.

Lembre-se, porém, que não era a cultura do tempo tão adepta das árduas frentes; não a Grega, pelo menos, que nos legou a base dos conhecimentos e interpretações; viviam uma cultura apaixonada pela vida e pelas suas mais imediatas manifestações, amavam e se admiravam fcom franqueza e entregado estupor; a dureza de Saturno, assim, tanto mais afligia a quem vivia o instante com a intensidade do que é mesmo instante.

Já quase se adentrava a Era de Peixes e Platão ainda tinha de vociferar contra as miudezas ético-morais do arcaico Homero – sem nunca lhe negar a grandeza artística, a intensidade de seu encanto; ao lermos os predicamentos éticos de Platão na República, parece-nos um professor, com contida indignação, a palestrar para infames crianças… Compreende-se assim, que os valores propriamente Saturninos eram dificilmente louvados nesta época; que quem mais se admirava da Ira de Aquiles ou das jornadas fantásticas e inebriantes de Odisseu não aceitaria fácil o brilho de sisuda virtude; ainda que já lampejasse no lento enlaçar de Penélope, ou no hábil proceder de Atena.

Seu lento percorrer o Céu propiciava ter seus efeitos medidos nas gerações humanas, assim como em épocas e eventos sociais. Cada vez que dificuldades ocorriam e se podia junto se medir o seu passar no Céu, soía se culpar o astro, numa cultura que tendia a enxergar bem mais as associáveis benesses – e moderar os males – dos próximos e vibrantes planetas – Lua, Vênus, Sol – do que com aquele que ganhou pejorativa rima, o taciturno Saturno.

Eram também os temos do excepcional e desafiador Orfeu, bem mais temerosos quanto aos extremos, ao longínquo, aos fins. Sua mitologia narrava triste e sombrio Hades. As tragédias mais predicavam o caminho-névoa de num misterioso mundo se ser tão humano – a sombra de um sonho. Skios onar anthropos.

Outro diverso afã pelo mistério, pelos extremosos caminhos se vê na Índia, pelo menos à partir das Upanixades; semelhante ao deslindar trilhas avante como as borboletas do taoísmo; e nesta via fez Platão amolecer os Helênicos ouvidos ao ouvir soar o mistério prometendo iluminado Reino das Idéias, nos transfins deste mundo, e em incomensurável Luz.

É em ver Saturno como um dos extremos; como lhe viam os antigos, o que a hodierna astrologia mais afirmou após tatear a natureza de Urano e Netuno; é em proferir, parodiando Aristóteles, um mundo subsaturnal e um mundo transsaturnino; e em adentrando as palavras na meta-física, que se instiga suspeitar um pouco do que seus Anéis trazem de sublime et merveilleux.

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