Signo de Áries

Em Áries se abre o zodíaco, e tudo começa a vir a ser. Em Março, no mês persa de Farvardin, o zodíacio inicia a rodar, com o fôlego incisivo do que é só começo; neste ponto, nada ainda se sabe do que em quadrantes adiante há de se encontrar; nem mesmo do preguiçoso Touro a ruminar seu chão se tem notícia; da moça a colher os favos do trigo, do escorpião a mais se ocultar, do jovial a derrubar o aquário em mar; da cabra-marinha em taciturno calcar montanhas. Nada disso se vê: aqui, o mundo é um carneiro a saltitar adiante: chifres em riste, se preciso for.

E cada nosso algum começo, cada surgir de força que vem de dentro: seja de amor, de decisão, de sonho – todo e cada vir-a-ser tem deste signo a consubstanciada matéria. Sem ele nada começa – a não-inércia – e seria a Terra tão parada quanto – nos diz Plotino – um círculo parado não é mesmo um círculo, antes, um ponto.

Seu regente é o mais desprezado por Hesíodo, que, nisto tendo razão, ojerizava a violência – na Teogonia vemos Hades(Plutão) ao lado de Perséfone na descrição do Tártaro, aclamada passagem é o nascer de Afrodite(Vênus), a Zeus(Júpiter) são inúmeras menções: mas a este a que se confiou de domicílio logo o primeiro dos signos zodiacais é feito mero, quase esquecido epíteto, já no fim do poema. Contudo, devemos aqui dotar-nos de apetrechos sociológicos e tentar compreender os tipos que, no tempo do pacato agricultor beócio, insistiam em cultuar e se considerar zelosos deste Deus. Ora, melhor compreendê-lo é pano para metafísica, Marte, contudo tão louvado por muitos dos mais vulgares romanóides, tem no analisar do céu outra diversa característica, com a qual poucos dos que já o seguiram belicosos gostariam de se influir: a ingenuidade.

O ariano é, sem dúvida, o mais ingênuo de todo o zodíaco. O seu lançar-se adiante é por seu mais íntimo direito de ser: o marciano veio ao mundo para brilhar. Todos viemos: e o ponto de cada horóscopo tocado por Marte é aquele que nos insufla o âmago do impulso extrovertido de flamejar, sem olhar adiante ou para trás. Eis, no que, aos olhos dos outros, o influído pelo planeta vermelho parece tão ingênuo: ele não olha o que tem à frente, não calcula, simplesmente vai e faz; por fora, parece uma criança; – e por dentro é todo brilho.

Neste agir sem pensar, e no não-ver o que há a frente calcam-se riscos para o ariano, afinal, sua energia propulsora é tão intensa que qualquer entrave à sua manifestação resultará rapidamente em impaciência; se a energia de Júpiter, variegada, quando contida, resulta em ansiedade, a de Marte, em seu viés incisivo logo se transmuta em irritação: dê-lhe um palco, ao Ariano, pois é ente que anseia estreiar.

Sua exaltação – seu tablado, capoeira em que fará seu todo show – é em Capricórnio: pelo que se compreende que tamanha energia é melhor direcionada quando para em concreto, realista, dedicado conseguir. Marte leva cerca de dois anos a percorrer os altos céus, e, raras vezes, faz-se – o inexplicável! – retrógrado – quando todos nossos impulsos se tornam mais individualmente criativos.

Sejamos, sempre, – tenhamos a confiança de ser – carneiros saltitantes, para melhor era, para maior festa.

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