Signo de Peixes

Quando Netuno viu Salácia pela primeira vez, tremeu-lhe o cetro de três pontas num aquático fraquejo; e já iam maremotos por três mares vasto oceano a dentro, não fora a perspicácia de Nereu a dar-se conta.

Mas Salácia se ocultou; no fundo do Oceano, tão profundo como são os sonhos… E o som dos mares a ecoar na amplidão, salgaram-se desilusão. Como a água dos gelados pólos, ou os abismos nunca mergulhados que jazem no imenso pélago. É através deles que se estendem as portas do reino de Plutão – e todo rio que reflete a Lua há que ainda desaguar: move-lhe o prateado espelho, nas ritmadas marés, e ele é todo balouçar incerto; reflete pois também a Lua em retribuição: e qual espelho imenso a refletir cada singular constelação, é belo sob o Sol, e mais ainda sob o véu da escuridão.

Saudade do mar – gosto que nem no centro do mais amplo continente, milhas incontáveis de Terra, em deserto a se perder de vista, se deixa de provar. Dizem que foi pelo amargo devaneio, do Deus que rege este salgado mar, que toda a Terra todo o tempo dele há – tenha ou não razão! – de recordar. Sentir saudade que jamais sossega: sonho que nos faz desfalecer ou navegar na água em que se entrega: Como fez Netuno, do possante Tridente, mediante eras de salgado pranto, e cada lágrima a mais se lamentar, que mais oculta era Salácia, se em seu choro, somente mais se aumentava o mar….

Quando apareceu Salácia, no inebriar de pranto que mais não era delirar: fez-se de novo sonho imenso o imenso mar; as cores mais vívidas que no fundo dos abismos inominados peixes piscam a se enfeitar vieram a superfície, e Urano, no alto Céu, soube mesmo que não foi à toa o seu aquário derramar.

E desde que reina Salácia com seu consorte, nada mais resiste ao encanto dos sonhos, ao sussurro do mar. A humanidade que jazia pois, cingida em separadas terras, para nunca mesmo ter a chance de um dia se ver ou se encontrar, ousou tanger as águas, ousou sonhar. E foi boiando em estrelados pélagos tapetes que primeiro se notou que no céu também se navegava e havia alguém ali a espiar. E a estrela de Netuno, ainda oculta em tênue névoa, riu naquela noite e chamou Salácia pra lhes avistar.

Que não se diga pois que do Signo de Peixes nada de concreto se foi dito; – pois Peixes, caro devaneante leitor, é isto.

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